Que nem limão

Que nem limão

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A batalha dos travesseiros

Conversar é versar junto.

Todo mundo sabe essa parte da história: eu gostei do Wyllian desde a nossa primeira conversa e desde esse dia, sabia que queria ficar com ele. Quando ele me ofereceu amizade, eu disse que já tinha amigos o bastante. Era outro tipo de verso que eu precisava.

Minhas amigas bastavam, não pelo número, mas pela existência cotidiana delas em mim.  

Se você conhecesse hoje aquele seu amigo de muito tempo, como seria? Seus assuntos combinariam? Vocês falariam um sobre o outro com admiração? Quando algo importante acontecesse, essa pessoa seria lembrada?

Hoje escrevo para falar sobre uma amizade que respeito não apenas pelo tempo de morada que fazemos quando passamos a ser um pedaço da vida de alguém. Mas também porque, se nos conhecêssemos hoje, seríamos amigas, nossos assuntos combinariam, nós falaríamos uma da outra com admiração e sempre que algo acontecesse ela seria lembrada.

As definições desta amizade são sempre atualizadas: por mais que as mudanças de anos, cidades, estados civis e de espírito sejam constantes. 

Mudança. É o nome do movimento que a gente faz para continuar (r)existindo a cada escolha sobre quem a gente quer ser na vida. E é uma das grandes que me leva a escrever esse texto que, na verdade, é um convite. E dos mais importantes.

Quando eu decidi casar, eu decidi fazer uma grande mudança. De cidade, de estado, de região. Foi uma decisão tomada no tempo suficiente para os pesos da balança da vida mudarem de lugar. Chegou o momento em que mudar era um ganho.

Decisão tomada, comecei a organizar a mudança, dar um destino às coisas. Deixei muitas sem dó. Mas aí, encasquetei que queria ficar com quatro travesseiros. Mandei lavar os benditos. Eram bons travesseiros, mas estavam comigo há alguns anos. Foi uma baita briga por conta deles. Wyllian não queria trazer. Fui grosseira e irredutível. Os travesseiros, em vez de amortecerem, trouxeram à tona vários assuntos ignorados. Foi uma das discussões mais difíceis desses anos juntos.

Para quem você contaria sobre a batalha dos travesseiros? Eu contei para duas amigas cujas opiniões valem ouro, e nem sempre são consonantes às minhas. Elas se compadeceram, entenderam a mim e ao Wyllian, que tinha a missão de fazer esse frete.

Uma delas é a Bianca, e é sobre ela quem vou falar aqui. Ela me disse duas coisas:

O Wyllian precisa entender que você tá deixando muita coisa sua pra trás. Que pela primeira vez na vida, você faz uma escolha que envolve outra pessoa que não você. É muito difícil, por mais feliz que você esteja em ir embora...E, Gê, travesseiro a gente troca de dois em dois anos.

Nesse dia, ela disse uma grande coisa: que eu tinha direito em me apegar aos travesseiros, embora não fosse muito higiênico. Wyllian os trouxe para Brasília embalados à vácuo. Ele também deixou para trás coisas velhas, para que as novas tivessem espaço. É isso que a gente faz quando escolhe conversar com alguém nesse nível de intimidade. É preciso estar disposto a ouvir e ver o outro.

Penso que foi com a Bianca, que comecei a aprender a fazer essas duas coisas. É porque ela é capaz de longas conversas até dormir para eu não ficar triste. Nossa amizade nasceu destas longas conversas. E elas foram curativo, tantas e tantas vezes. A palavra tem essa mania de ser cimento nas relações que sobrevivem ao tempo. Não é a toa que ela é psicóloga de gente que vive o máximo da fragilidade humana. Ela é muito boa nisso.

A história da batalha dos travesseiros é uma clássica ilustração do que é ter a Bianca em minha vida. Sinceridade, acolhimento, humor e absoluta ausência de pieguice.

Quando começamos a organizar o casamento, uma das certezas era a escolha não religiosa. Queríamos um amigo realizando essa cerimônia que oficializa a decisão de conversar até ficarmos velhinhos (e o Wyllian usar um dos famigerados travesseiros para fazer cosplay do tiozinho de Amour).

Quanto a essa decisão, Bianca foi a única certeza. Alguém que não teria vergonha em falar, pois sabe usar as palavras de amor, amizade, companheirismo e mais um bando de coisas. Eu sempre falo: tenham uma Bianca. Eu tenho, então eu posso perguntar:

Ow, Bianca, você aceita me casar?

Resultado de imagem para joey friends dearly beloved

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Carta de despedida

Meus queridos,

Valor de transitoriedade é valor de raridade no tempo. Quem diz isso não sou eu: é Freud. Sei que agora vocês acabam de grudar nos lábios um sorriso que mistura divertimento (e talvez exasperação) e pensaram: com a Angela é sempre Freud. E pensaram certo. Eu não sabia direito como me despedir de vocês, por isso esse momento acabou de entrar no meu "top 5 despedidas difíceis". Parece que eu não aprendi mesmo a dizer adeus. 

Posso contar uma história? Acho que já a contei para muitos de vocês. Eu tive uma avó que foi de uma importância tremenda na minha vida. Ela tinha setenta anos quando eu nasci, e nos anos 80 isso fazia dela uma mulher bem velhinha. Eu gosto muito das lembranças que eu tenho dela, uma senhora enrugadinha, de cabelos enrolados, que gostava de usar brincos e colares, tinha as unhas compridas e pintadas. Quando ela ainda não tinha perdido grande parte da visão, ela passava o dia fazendo crochê. E ela passou muito tempo morando com a minha família. E quando ela foi embora da nossa casa foi muito difícil. Eu não consigo lembrar desse dia. Mas sempre quando eu penso na ausência dela, eu deixo de ser adulta, me faltam palavras e meu sujeito infantil, esse que habita o mundo em que as palavras que me constituíram ainda pertenciam só ao outro, emerge. Esse sujeito, então, vasa. É quando eu choro.

Minha avó se chamava Irene. Até nome de vó ela tinha. Vocês sabem que me interesso muito por nomes, e o dela tem um significado especial, ele deriva de uma palavra que quer dizer paz. Por isso, Irenes seriam pacificadoras. Eu fui descobrir isso mais velha, quando comecei a me interessar pelos nomes (eu tinha uns catorze anos). Sempre achei que minha avó transmitia paz. Ela não costumava se exaltar. E quando acontecia alguma coisa que ela não concordava, ela falava a respeito com um olhar de incredulidade. Fazia um ruído com a boca,  um tsc, e seguia a vida. Ela gostava de doces e levava bala para chupar na cama enquanto ouvia o rádio até dormir. Ela levantava à noite e pegava um copo de refrigerante ao invés de água. Ela era muito divertida. Herdei dela meu apreço pelas balas, pelo refrigerante e pelos momentos intermináveis de ficar fazendo nada, só pensando na vida. Minha avó passava horas sentada pensando em coisas que ela nunca me contou. Tudo isso pra contar que outra herança que ela marcou em mim foi eu ser ruim de despedidas. Ela sempre chorava e ia se esconder nessas horas. Os olhinhos azuis e miúdos dela se enchiam de lágrimas. Como se encheram os meus tantas vezes nas últimas duas semanas.

Por isso, eu peço desculpas por não ter conseguido me despedir de vocês propriamente. Por ter ficado sem palavras diante das que vocês me diziam com tanto carinho. É por causa também disso que resolvi escrever essa cartinha: é que quando a gente chora, a voz embarga e a palavra falta. Minha capacidade escrita sempre foi melhor que a oral, por isso que eu fico tão puta quando alguém diz que ser professor é um dom. Vão lá perguntar para as primeiras turmas que eu dei aula...eles vão dizer, no máximo, que eu era esforçada. E a gente sabe que isso não é bem um elogio, né? Eu não fui uma boa professora desde sempre. Mas eu sempre desejei ser uma boa professora. E eu investi nisso. E vocês sabem o que eu investi nesse desejo? Eu investi o que há de mais caro, o que de mais difícil. Eu investi o que eu tinha de mim.

É por causa disso que quando, nas duas últimas semanas, vocês fizeram festinhas, escreveram frases que eu costumo repetir, cantaram a música que deu origem ao meu bordão preferido, me deram flores, cartas, bolachinhas gostosas embaladas na caneca, marcadores de página personalizados ao melhor estilo xalalá, deixaram recados nas provas, me mandaram e-mails carinhosos e me deram muitos, mas muitos abraços, eu cheguei à nada brilhante conclusão que quando você investe no seu desejo, o retorno é garantido. Mais garantido que poupança. 

Vocês sabem que eu nunca pretendi ser mestre pra vocês. Uma vez, conversando com uma professora minha, eu reclamava sobre os alunos (não sobre vocês, imaginem, vocês são ótimos, jamais reclamei de vocês na vida...na verdade, eram alunos de uma amiga), eu dizia que sempre quando eu começava a querer achar que os alunos eram relapsos, pouco dedicados, pouco esforçados, eu pensava em como eu tinha sido como aluna. Essa professora disse então: é um exercício muito importante. E hoje eu tenho certeza disso. Quando digo que nunca pretendi ser mestre pra vocês, eu me lembro de uma coisa que escrevi no ano passado. Eu disse que vocês me faziam lembrar como era ter 18, 19, 20 anos.

Como vocês sabem, eu sou uma velhinha. Eu não gosto muito de sair de casa, eu reclamo de dor nas costas, nos pulsos, no ciático. Minha voz começou a falhar esse ano, justo quando eu decidi que ia ficar um tempo sem ser professora (eita, porra), mas eu queria que vocês soubessem que eu amo olhar pra vocês. Quando eu digo que sou stalker, é porque eu me divirto em ver as fotos, as stories, as postagens sem noção em dias de aniversário, os comentários inconvenientes quando alguém adiciona outra pessoa no Facebook. 

Tem muita gente aí que pode atestar isso: eu sempre fui velha. Então, vocês exercem em mim uma espécie de fascinação. Eu acho a existência de vocês uma coisa realmente bonita, algo a ser admirado. E eu admiro. Então vocês conseguem imaginar o que é pra mim receber tantas palavras e carinhos e abraços e olhares de vocês? Pois é, é uma grande honra. 

Por isso, quinto ano, quando vocês me chamaram para ser paraninfa, eu disse a vocês: é a maior honra. E eu vou dizer porquê: um paraninfo não é alguém que você acha legal, mas alguém que tem algo a dizer e não sobre a honra em ter sido escolhido, mas sobre ser e estar no mundo. É um título honroso e quem o recebe deve entregar a palavra que humaniza através do afeto presente no último "te vira" que vocês receberão na graduação. De mim vocês já sabem o que esperar: sinceridade, dedicação e um grande ema, ema, ema, cada um com seus problemas se eu entender que é assim que tem que ser. Até porque o mestre sempre sabe resolver os problemas de todos. Eu não sei. Sair da Unicentro carregando essa homenagem é uma linda forma de encerrar um ciclo. E vocês, que conseguem unir dedicação, humor, comprometimento e respeito, me deram isso. Obrigada!



Enquanto uns estão com um pé na saída, outros acabaram de chegar. E eu preciso dizer, primeiro ano, sobre o cagaço que eu sinto em dar aula para vocês. Logo que a gente se conheceu eu já fui dizendo: peguem, mas não se apeguem porque eu tô de saída. Eu não queria ter feito com vocês o vínculo que eu fiz. Eu não queria estar sofrendo por não terminar a disciplina de Desenvolvimento como eu estou. No fim, como acontece nesses casos, quem se apegou fui eu. E me contem como não me apegar a vocês? Diferente dos colegas mais adiantados, vocês ainda estão encantados com o imaginário de uma profissão. E eu vejo que tenho duas funções: desconstruir esse imaginário e contar que, mesmo sem o ideal, quando tem desejo envolvido, vai ter muita angústia, mas muita satisfação também. Deixa eu falar uma coisa agora baixinho, no ouvido de vocês e não deixem os veteranos ouvirem: sejam calouros por mais tempo. Alimentem essa criatura encantada com a novidade que o curso traz. Eu digo isso porque entrar na sala de vocês às sextas feiras, depois de vocês terem tido aula a manhã toda com a Paula, que não é fraca, e ter vocês ali, durante a maior parte do tempo, de corpo e alma presentes, me faz até envergonhar dos dias em que quem chegou cansada fui eu. A gente ficou junto pouco tempo, mas foi lindo. E cada palavra escrita no quadro é um jeito maravilhoso de se despedir de alguém que ama muito as duas coisas: o quadro e a palavra. Que bom que a minha palavra fez marca em vocês. É assim que os objetos permanecem dentro de nós. 


Por falar em palavra, sinto que algumas faltaram na nossa relação. Não sei se já contaram, quarto ano, mas vocês são conhecidos como um grupo crítico. E olhem, eu não tive dúvidas disso desde a primeira vez que eu coloquei meus all stars na sala de vocês e comecei a falar sobre psicanálise e psicopatologia da infância. Faz nove anos que eu dou aula, e tremi nas bases algumas vezes dando aula na 329. E por isso, quando me despedi hoje e recebi mais uma cartinha falando sobre meu lugar de transmissão eu pensei que fiz algo bem. Acho que vocês me ajudaram a quitar parte da dívida, aquela que eu contraí quando meu desejo de ser professora foi plantado, aquela que eu contraí quando encontrei os primeiros professores que, de tão bem que transmitiram o que ensinaram, me colocaram nessa roda devedora de ensinar. Eu achava que nossa relação não tinha muita proximidade, e hoje, eu cheguei à conclusão que fomos muito tímidos. Nossa despedida foi meio envergonhada, mas as flores que vocês me deram serão plantadas e cultivadas e vou lembrar de vocês sempre que as vir florindo. Vocês me tiraram da zona de conforto. Eu também agradeço por isso.


Quando o assunto é zona de conforto, eu estou entendendo que os meus bonitos do segundo ano vão causar nessa universidade nos próximos anos. Por favor, me contem as tretas. Acho muito incrível esse salto que vocês fizeram. Mal chegaram e de repente estão aí, querendo se mandar, é isso mesmo? E o pior é que é. E como eu respeito vocês por isso. Vocês amadureceram muito em um ano. Vocês me ensinaram a dar aula para primeiro ano. Eu não tava acostumada. E vocês me surpreenderam sempre. As provas que vocês escreviam, os trabalhos dedicados e até a atenção que me deram esse ano em Metodologia de Pesquisa, foram grandes demonstrações que eu vou ouvir falar dessa turma até vocês saírem da Unicentro e além. Meu maior sentimento é pelos encontros que a gente não terá. Pelas aulas de psicopatologia da criança, de supervisão de estágio e de jurídica que eu não vou dar pra vocês. É onipotente isso, eu sei. Mas eu queria participar só mais um pouquinho dessa trajetória de vocês. Eu queria ver vocês grandões atendendo pacientes. Não vou ver. Por isso, por favor, me contem! Eu vou amar saber. Eu vou sentir muitas saudades.



Saudade é a palavra, né? Saudade é o nome do que vou sentir do Leituras. Vocês não têm ideia do que vocês me causaram quando se despediram de mim. Eu disse naquele dia que foi a coisa mais bonita que já me aconteceu. E foi. Vocês fizeram algo que de tão bonito eu não consigo narrar. Falta palavra, brotam umas lágrimas gorduchas e eu preciso parar. O grupo de estudos era minha hora do recreio. Vocês citaram Eliane Brum, falando sobre ninguém ser substituível. Eu não minto: eu fico faceira em saber que não sou substituível para vocês. Mas vou falar uma coisa bem importante: vocês também são insubstituíveis. O que vocês me deram foi a sensação que foi traduzida por várias pessoas que me conhecem a fundo: como você vai ficar sem eles? Vai ser difícil. Será que em outro lugar vou fazer outro grupo de estudos de Freud? E vocês? Eu espero que sim para as duas perguntas. Somos insubstituíveis mas não somos únicos. E a vida sempre abre espaço pro novo, então, resta acolher esse novo.



E, finalmente, falando em novo, tem gente que se forma em e vira novo psicólogo, com CRP e tudo. Acho muito importante ser supervisora por causa disso. A gente começa a ter uma noção muito boa, muito clara do que essa formação significa. E o que eu disse pra vocês, meu grupo de supervisão, é muito verdadeiro: eu confio em vocês. Vocês são infernais. Falam sem parar. São distraídos. Subvertem o tempo, as falas, enfim. Vocês fazem isso e ainda assim fazem as coisas direito. Eu fico intrigada. Nossa experiência de supervisão foi rápida. Mas como já havia entre nós uma conexão de longa data, ficou muito fácil. E, uma vez mais, vocês me deixaram chocados pela dedicação e comprometimento sem nunca reclamar. Vocês entenderam muito a bem a parte que eu ensino em que cada escolha é uma renúncia. E a melhor parte, vocês não me odeiam e nem odeiam o mundo por isso. Contem comigo. Eu não vou sair no grupo, era brincadeira. E eu brinco porque vocês me permitem brincar sempre e enviar gifs de madrugada e continuam me respeitando.


E eu acho que é isso que eu queria dizer. Foram quatro anos aqui brincando com vocês. Quatro anos em que respeitei os alunos que encontrei aqui. Em que fui colaboradora. Acho essa palavra esquisita, porque o que eu fiz aqui foi mais que colaborar, isso eu sei. A única certeza que um professor colaborador tem é que ele é passageiro. E é por isso que eu fiz meu trabalho com vocês com tanto amor. Se minha estadia aqui é passageira, que as marcas dessa passagem não sejam. Obrigada por tudo.

Por último, uma última citação de Eliane Brum, senão a carta não seria minha:

Crescer, é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba" (da Coluna "Meu filho, você não merece nada)

Sentirei muitas saudades!
Com amor, Angela.




Para ler ouvindo: 







domingo, 4 de junho de 2017

Passagem

Passagem.

É esse o nome que a gente dá praquele papel em que se leem alguns dados importantes: local de partida, local de destino, horário de saída.

Em 2002 comecei a comprar as primeiras passagens. Foi quando a corda que me liga à minha casa começou a se esticar. Dificilmente falo sobre a casa em que meus pais moram sem dizer "lá em casa". Esse é um dos méritos deles. Eles me deram uma casa pra voltar.

Mas eu comecei a sair dela bem devagarinho, sem ir muito longe. 

Primeiro cento e poucos quilômetros. Em um ano a corda teve que se esticar mais um pouco. Alguns quilômetros a mais, quase cinco anos em que a corda esticava e voltava, esticava e voltava. E eu gostava tanto de lá, que não queria voltar. Mas eu precisava seguir. Esse é o custo de ser adulta: sair de onde a gente se sente confortável.

Aí a corda se esticou demais. Mais do que era possível. Era como se eu não fosse capaz de esticá-la a esse ponto. Voltei. Magoada, triste, confusa. Quase dez anos depois que saí da faculdade, costumo resumir aquele período, que durou uns dois anos, como um stand by. Demorei muito pra acordar. Demorei um tempo tão grande que eu só percebi que eu tinha ficado dormindo muito tempo depois. 

Foi aí que viajar se transformou num sintoma. E eu ia loooooonge, voltava. Ia de novo. Voltava. E assim eu posso sintetizar uma vida entre cidades: Guarapuava, Ponta Grossa, Maringá, São Paulo, Curitiba, Guarapuava de novo, Irati, Rio de Janeiro e Brasília.

E esta última é a mais inusitada, porque para as outras eu ia por causa de mim. E para Brasília, eu nunca fui só por mim. E foi pra lá que ontem eu comprei uma passagem só de ida.  Essa compra começou a ser planejada há mais ou menos três anos. E olha que eu sou bastante intempestiva. Mas nesse caminho em que eu me estiquei para alcançar os outros lugares, eu encontrei um lugar em que meu coração pudesse ficar. E encontrei esse lugar em Guarapuava mesmo. Só precisei olhar pro lado. 

Lembro de uma questão de análise: eu sinto como se eu não tivesse uma cidade. Estou sempre indo e voltando, voltando e indo. E as viagens. Elas fazem parte de mim. E a minha casa vai perdendo o jeito de casa e vai ficando cada vez mais parecida com um lugar de passagem. E assim eu me despedi de várias casas. Casas que eu montei e que me fizeram descobrir dois talentos: eu sei montar e desmontar uma casa. E eu gosto de me mudar. E quanto mais eu recusei a me mudar de mim, mais eu passei a não me importar em me mudar de casa.

Você vai deixar suas coisas. Os móveis que você mandou fazer. Os objetos que você gosta. Alguns eu vou levar. Outros eu vou dar. Outros minha mãe guarda naquela casa pra onde eu posso voltar buscar. Uma vez um professor disse que a rodoviária era o lugar mais fácil de admirar a fragilidade humana: olhe para o tamanho da mala. E eu tenho um pouco de vergonha toda vez que preciso despachar bagagem. 

Mas tem bagagem que não dá pra despachar. 

É essa bagagem que dá pra somar. E é isso que eu venho fazendo desde que eu tive uma sorte na vida: a sorte de encontrar alguém com quem eu possa dividir toda a minha dor e meu amor. Embora o caminho até eu aprender a dividir tenha sido bem comprido. 

Há alguns meses meu pai disse que meu namorado tem uma característica importante para quem quer casar. Ele tem paciência. Ele teve que ter muita porque esse meu jeito intempestivo foi como um trator. Eu fiz alguns estragos que consegui consertar. Sorte, ele diria. Você é uma pessoa de sorte que conta demais com a sorte. Sou mesmo. 

Mas foi duro comprar passagens mês a mês nos últimos anos para ir até Brasília. Essa cidade que eu gosto tanto. Toda vez, eu digo toda vez mesmo que eu vou pra lá, eu quero passear de carro e ver. A cidade sem esquinas, a cidade planejada, a cidade quente, a cidade em que faz frio à noite e precisa levar uma blusinha, mesmo pra quem vem do sul. 

Leva um abrigo, filha, diria meu pai. Em Brasília mês a mês eu fui atrás do meu abrigo. E se ontem comprei a minha passagem só de ida para lá, hoje comprei a última em que vou de visita. Porque depois é a minha casa. Não sei se pra sempre. A vida muda muito. Mas agora eu não viajo mais sozinha. E eu sei que eu posso dividir o peso dessa bagagem.

Passagem. Passa, Gê.

PS: Escrevi esse post pensando nisso daqui:


sexta-feira, 26 de maio de 2017

O que precisa ter em uma festa de casamento

Eu vou casar. E essa é uma frase que tem rendido uns olhares bem interessantes. Claro que a interpretação é minha, mas o que eu vejo é que as pessoas ficam alegres e surpresas quando o casamento é mencionado por alguma razão. Quando eu decidi casar, eu descobri que todas as pessoas, exceto aquele motorista de Uber, ficam felizes em ouvir falar sobre casamento.

E aí eventualmente elas perguntam: vai ter festa? E eu respondo que sim. E aí as respostas variam desde "que loucura gastar tanto dinheiro em festa de casamento" a "a festa de casamento é a melhor parte de casar". É uma régua bem maluca. 

Eu descobri isso desde as primeiras reuniões que fiz com os tais fornecedores. E eu descobri que o que os fornecedores mais fornecem é angústia. E eles não fazem por mal, mas porque a é a função deles é garantir que nada falte. Mas faltará sempre, né?

Por isso eu saí arrasada da primeira reunião: eu não sabia responder a nenhuma das perguntas. Eu sabia qual lugar gostaríamos de fazer a festa, mas eu não sabia sobre a decoração, som e iluminação, buffet, gerador, aluguel de cadeiras, DJ ou banda, e mais uma quantidade imensa de coisas que eram questionadas enquanto me chamavam de noiva. Aliás, preciso dizer sobre a birra que eu tenho com essa palavra. Me faz pensar aquelas pessoas que ficam noivas durante doze anos. Sigo chamando o Wyllian de namorado. E fui corrigida algumas vezes nas reuniões quando eu dizia namorado. 

Ele aliás foi quem garantiu minha sanidade. Eu fiquei tão angustiada com as coisas que eu não sabia sobre nosso casamento que uma intervenção dele foi superimportante: "Angela, do jeito que você tá ansiosa, ou a gente adianta esse casamento para daqui a dois meses ou a gente vai ter que entrar com medicação".

Não adiantamos o casamento e não entramos com medicação. Apenas foi necessário parar de olhar pra essa régua do que precisa ter em uma festa de casamento. Uma coisa interessante que eu descobri nesse meio é que quando alguém te pergunta alguma coisa, é bom que haja a resposta certa. A pergunta, portanto, pressupõe que você responda o que se espera. Exemplos:

Alguma coisa diferente para convidar os padrinhos, algo que não seja: a gente queria ter vocês como padrinhos.

Uma sessão de fotografias antes do casamento.

Daminhas e daminhos. 

Dia da noiva.

Vejam, eu não estou julgando essas coisas erradas. Eu estou dizendo que essas coisas não são importantes para mim. E eu sempre ouço que a festa do casamento tem que ter a cara dos noivos. Se tiver a nossa cara, vai ter mesa redonda tratando sobre feminismo e psicanálise e memes do futementales por toda parte. Ou seja, dizer que a festa tem que ter a nossa cara é uma baita falácia.

Sabem o que foi o diferencial na escolha da assessoria do casamento? Escolhi a pessoa que me disse que sempre que eu precisasse eu poderia falar com ela. Quando EU precisasse.  

Faltam quatro meses para o casamento. O tempo está passando rápido e eu quero que essa festa seja linda. O que eu não aceito é que ela seja resultado de um monte de imperativos sobre o que precisa ter em uma festa de casamento.

Porque eu já sei o que precisa ter: o desejo de fazer uma festa e a possibilidade de realizar esse desejo conforme o bolso permite. 

No mais, é cagação de regra.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Minha experiência com o coletor menstrual ou olha o que é o estudo né, gente?

Sempre fico impressionada com as facilidades da vida. Não compartilho de nenhuma nostalgia romântica em relação a épocas anteriores. Por isso que eu fico feliz toda vez que inventam alguma coisa que melhora meu dia a dia. E o coletor menstrual é uma dessas coisas.

Faz uns dois anos que eu ouvi falar sobre ele. Li, entrei em sites que vendiam, vi vídeos no youtube. Mas demorei a aderir à ideia. Porque eu não achava que ia conseguir usar. Nunca me adaptei com absorvente interno porque sempre tive medo que se perdesse no buraco negro que eu imaginava possuir. 

Bom, eu menstruei pela primeira vez com quase 14 anos. Tarde, se comparada às minhas amigas. E eu tinha tanta, mas tanta vergonha que não tinha coragem de falar a palavra menstruação. Escrevi uma carta para minha mãe contando, de vergonha de dizer. Falando em carta, uma amiga minha  tem uma minha guardada em que eu contava que tinha menstruado, mas sem usar a palavra e ela disse que foi um desafio decifrar minha mensagem. Aliás, eu conheço muita gente que não fala MENSTRUAÇÃO. Dizem que acham feio. Eu sempre achei feio dizer "chico", "naqueles dias" ou qualquer outro apelido. Não sei dizer quando, mas chegou um momento que eu comecei a falar sem nenhum constrangimento. 

Mas vamos ao coletor. Comprei o meu ano passado, acho na metade do ano. Quando vi aquele copinho de silicone eu pensei: eu não vou ter coragem de colocar. E se não conseguir tirar? E se eu tiver que ir num pronto socorro? De novo aquela ideia de buraco negro. O fato é que tentei. Colocar o coletor depende de você saber como dobrá-lo. E não tem só um jeito. Eu dobrei da forma como era indicado no manual. Resultado: vazou, porque eu não consegui colocar até ele se abrir e encaixar no colo do útero. Fiquei frustrada. Me senti realmente mal, com a sensação de que eu não conhecia meu corpo, que eu não era capaz de usar um artefato que parecia ótimo Eu realmente queria usar. Aí você pode perguntar: por que você queria tanto usar?

São alguns motivos: meu fluxo menstrual sempre foi intenso. Por isso eu sempre vazei. Mesmo tomando cuidado, acontecia com uma frequência maior do que eu era capaz de controlar. E eu li que o coletor era bom porque você passava a ter uma ideia melhor de quanto menstrua. O absorvente faz a gente pensar que está tendo uma hemorragia, pois, na verdade, tem um poder pequeno de absorção. 

E eu viajo muito. Horas sentada, viagens de nove horas de ônibus já fizeram parte do cotidiano. E não é só o problema da viagem, mas dos banheiros que você tem que frequentar quando viaja. É muito trabalhoso se equilibrar para trocar um absorvente. E se limpar decentemente. E a gente se suja. A menos que você tenha um fluxo  pouco intenso, poucas coisas incomodam mais do que a lambança que você faz para se limpar quando está menstruada. É isso mesmo. Se você só usar papel higiênico, vai levar sangue até pro rego. E isso não é engraçado. É muito chato. 

Questão do cheiro. As pessoas tem nojo do sangue da menstruação porque ele é fedido. E a verdade é que um absorvente é uma coisa bem nojenta mesmo. Como eu disse, ele não absorve de fato e você, dependendo do fluxo, fica com aquele sangue em contato com a sua pele e, novamente, com sangue até no rego. Quando você vai ao banheiro, não é nada agradável. 

O resumo da história: usar absorvente é uma merda e me ofereceram uma opção que parecia mais prática, mais higiênica e mais segura. Umas três ou quatro amigas minhas usavam e falavam que era muito fácil. Com algumas delas eu sou sincera o bastante para ter contado minha frustração por ter tido medo de usar. Meu sentimento de inadequação em relação ao meu corpo. E uma delas me disse uma coisa que me impressionou muito. Ela me contou que minha buceta não era um buraco negro. E que eu não corria o risco de perder o coletor lá dentro. Como se não bastasse, ela fez um vídeo me explicando a dobra que tinha dado certo pra ela. Fica o conselho pra vida, gente: tenham uma Bianca. Faz muita diferença.

Então, munida das palavras e ensinamentos da Bianca, na minha última menstruação, resolvi tentar. E...deu certo! E no primeiro dia eu já adorei a ideia. Como eu estava em casa trabalhando, eu podia volta e meia tirar o coletor e ver a quantidade sangue que tinha saído, desde o primeiro dia de menstruação até o último, para eu ter uma ideia de quantas horas eu posso ficar com ele. E digo: nem nos dias mais intensos de fluxo, o copinho ficou mais cheio do que a metade. Ou seja, eu podia tranquilamente colocar de manhã, e tirar à noite na hora do banho, e aí colocar no banho novamente e retirar pela manhã, tudo isso com o que eu considero muito mais higiene do que um absorvente.

E por que eu achei tão vantajoso? Vou enumerar as razões:
1. O sangue que fica no coletor não tem cheiro de nada além de...Sangue! Diferente do sangue do absorvente que tem aquele cheiro desagradável. Como no coletor o sangue não tem contado com o ar, ele não fede. Fica ali quentinho e quando você tira o coletor, não espirra sangue para todos os lados, fica no copinho, pronto para você jogar no vaso sanitário ou no ralo mesmo. 
2. Se você colocar seu coletor no banho, ao se enxugar você não vai precisar tomar todo o cuidado para não sair pingando do chuveiro e eventualmente sujar sua toalha. Aliás, nunca conversei sobre isso com ninguém: é uma droga se secar depois do banho quando você tá menstruada. Com o coletor, você se seca sem precisar de cuidados extras.
3. Você não sente ele durante o dia, o que não acontece com o absorvente normal. 
4. Você não fica úmida durante o dia, o que não acontece com o absorvente normal. 
5. Você não gasta meio rolo de papel de higiênico cada vez que vai ao banheiro fazer xixi. A cada xixi, usando o coletor, vai sair só xixi mesmo. 

E finalmente:

6. Sangue até no rego: NEVER MORE.

Algumas pessoas acham esquisito usar o coletor. As que eu conversei perguntaram sobre o contato com o sangue. Se você cuidar direitinho, na hora de tirar, o sangue não vai escapulir e você não precisa tocar nele. Mas como eu disse, é um sangue normal. Ele tem uma viscosidade maior, até porque ele é escamação do endométrio, mas o que pode ter de nojento no seu endométrio? 

Você vai ter um contato maior com o que cientificamente a gente chama de assoalho pélvico (e popularmente de a parte interna da buceta). Talvez esse seja um problema maior. Talvez seja por isso que o coletor tenha ido parar nas pautas feministas. Talvez tenha a ver com o fato de que as mulheres ainda têm uma limitação em relação ao próprio corpo a ponto de terem resistência a investigarem seus buraquinhos. 

Além do quê, o nojo da menstruação e a repulsa em relação a ela também fazem parte da pauta feminista, pois estão relacionados à uma demonização da sexualidade feminina. Coisas como: não poder fazer um bolo menstruada, porque não vai crescer, ou uma mulher menstruada não poder sentar na cama de uma mulher grávida, porque esta pode perder o neném, e por aí vão as crendices que resultam dessa demonização. E vejam, eu com 32 anos tinha medo de colocar o meu lá dentro. Precisou uma outra mulher me contar que eu não corria esse risco. Então, cá estou contando para quem quiser ler esse texto.

Minha conclusão sobre o uso do coletor depois dessa experiência maravilhosa de higiene menstrual é: eu queria dar um abraço em quem inventou, pois é um objeto flexível, de fácil limpeza e reaproveitável por até dez anos.

Por isso que eu digo: olha o que é o estudo, né, gente?

Edição: Eis o vídeo maravilhoso



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Carta para os estudantes

Queridos estudantes, 

hoje, passando pelo corredor da Universidade, li uma frase que dizia mais ou menos assim: Por que eu me sinto frustrado quando não atinjo o resultado desejado? Era um de uma série de cartazes, produzidos para lembrar a nós, professores, o quanto a formação que produzimos e oferecemos é opressiva e exigente. Partindo do princípio de ser uma das receptoras da frase enunciada, resolvi respondê-la ali mesmo, no próprio cartaz. Com um caneta de outra cor, para indicar a minha posição de enunciação, desenhei um "S" bem grande e acrescentei uma "/" que lhe atravessava de fora a fora. Eis a minha resposta: se nos sentimos frustrados ao não atingir o resultado desejado é porque somos barrados. E não há nada que possamos fazer, do lado de cá, para mudar essa situação. Não importa quantas necessidades se delineiem do lado de lá. 

Notem: eu fiz uma separação aqui: o lado de cá e o lado de lá. E o fiz propositalmente com um objetivo claro que é contar o que eu senti com a intervenção que vocês fizeram. 

Eu voltava do meu almoço, com poucos minutos para pegar um projetor e ir para uma aula de reposição. Uma das muitas que eu, e todos os outros, demos nas últimas semanas, aulas que elevaram substancialmente nossa quantidade semanal de trabalho, pois, como eu disse antes, ao entrarmos em uma sala de aula, o que oferecemos é um produto e ele é resultado de nosso trabalho. Ele nunca começa ali, naquela hora e minuto específicos. E também não termina ali. 

Ele é produzido antes de chegar à aula e prossegue sendo tecido, cuidadosamente nas nossas mesas domésticas de trabalho. E vocês sabem disso. E como sabem? Por que vocês vêm aqui em casa, me abordam no supermercado, ou no restaurante quando eu estou com meu namorado, ou no semáforo quando eu estou levando meu pai ao médico. E aí vocês podem dizer: nunca fui à sua casa, professora. Ou abordei você no supermercado. Ou enquanto você levava seu pai ao médico. E eu digo: sim, vocês fez todas essas coisas e fez porque eu aceitei sua solicitação de amizade no Facebook. Fez porque eu dei meu número de telefone e respondi no Whatsapp. Percebam: eu abri a porta da minha casa e deixei vocês me acessarem no semáforo. Então, isso não é uma reclamação, mas uma constatação. E eu arco com as consequências disso, respondendo quanto e se acho que devo.

Mas eu me dispersei, como é do meu feitio. Eu voltava do meu almoço, e cheguei em um corredor tomado por vocês. E vocês estavam vestidos em camisas de força. E vocês estavam amordaçados. E vocês carregavam placas em que falavam sobre sofrimento psíquico. Vocês eram vários, e fizeram duas fileiras, uma de cada lado do corredor. O corredor que eu uso para chegar ao meu local de trabalho. Eu poderia recuar e dar a volta. Não passar por vocês. Mas se eu fizesse isso, estaria de alguma forma dizendo que sinto vergonha de ser professora. Que sinto vergonha em fazer uma avaliação que exige dedicação e pensamento. Que sinto vergonha em fazer chamada exigindo assiduidade. Que sinto vergonha em deixar claro que a aula tem hora para começar e para terminar. E eu não sinto. Que disciplinadora, vocês podem dizer. E eu respondo: sim, sobretudo quando meu trabalho envolve dinheiro público.

A visão da intervenção de vocês foi a visão de um corredor polonês. Que é uma técnica de tortura. Eu poderia parar no ponto que sucedeu a palavra "tortura", mas vou prosseguir, porque hoje eu não vou dourar a pílula. Vocês não estavam munidos de bastões, nem lanças, nem cintos. Vocês sequer falaram. Mas vocês fizeram uso de linguagem. Através de suas placas descrevendo sintomas de sofrimento. De seus jalecos representando camisas de força. Da câmera de celular ligada enquanto passávamos. Eu passei por um corredor polonês, em que os agressores usaram a arma mais potente e perigosa de todas: a linguagem.

E não só eu. E por isso, através desse texto, eu abraço cada colega meu que tenha atravessado esse corredor e sentido isso. Cada colega meu que ouviu a carta de vocês e não conseguiu esboçar reação. Eu não ouvi a carta que vocês leram na reunião que sempre está aberta a vocês. Eu fui, como disse, fazer a minha reposição. Se lá eu estivesse, naquele momento, vocês teriam me ouvido, porque a palavra é feita para ser usada em várias vias. A unilateralidade não cabe a ela.

Vou contar uma história para vocês: eu era recém formada e tinha conseguido meu primeiro emprego como professora seis meses depois que saí da faculdade. Um dia, faltando uma meia hora para eu ir trabalhar, eu tive uma briga feia com o cara que eu namorava naquela época. E nós terminamos o namoro e eu fiquei muito abalada. Mas eu precisava ir trabalhar. Para mim, não havia possibilidade de eu não ir porque tinha terminado um namoro. Lembro até hoje da cena: entrei em sala de aula, cumprimentei os alunos, abri minha bolsa, peguei o material preparado, peguei um giz, virei para o quadro e comecei a escrever os pontos que trabalharia naquele dia. Enquanto eu escrevia, a briga tomava conta dos meus pensamentos. Eu comecei a sentir um nó na garganta e uma lágrima silenciosa caiu. Eu terminei de escrever e saí lavar as mãos, como sempre fazia. Voltei e dei minha aula. Ao final, uma aluna perguntou se eu estava triste. Eu sorri e disse que sim. Ela respondeu que esperava que o quer que tivesse acontecido se resolvesse logo, eu agradeci, guardei minhas coisas e saí. 

Isso aconteceu outras vezes. Por esse e outros motivos. Vejam, eu não estou banalizando o sofrimento, só falando sobre o mundo real. Há consequências em faltar ao trabalho, tanto no que diz respeito à qualidade dele, quanto no que diz respeito aos efeitos de ordem prática. Ir trabalhar não foi um ato de heroísmo, mas de responsabilidade. Assim como é um ato de responsabilidade procurar afastar-se das atividades quando elas se tornam impossíveis de serem cumpridas.

Segunda história: eu dava aula em uma turma e uma aluna veio falar comigo. Explicou que semanalmente ela perderia a primeira aula porque ela não conseguiria chegar a tempo, porque a pessoa que cuidava do filho dela só chegava mais tarde. Eu respondi a ela que entendia a situação, no entanto, eu não poderia ignorar que ela faltaria, no decorrer do semestre, uma quantidade de aulas superior aos 25% permitidos. Ela ficou brava e disse que o motivo dela deveria justificar e eu disse: Fulana, eu tenho certeza que se formos perguntar a cada um dos seus colegas se eles teriam alguma razão para não conseguir chegar aqui para a primeira ou mesmo para todas as aulas, eles diriam que sim. Eu inclusive também teria as minhas, ainda assim, estou aqui. Ela assumiu sua condição e desistiu da disciplina. Voltou no semestre seguinte.

Tenho certeza que ao ler essas histórias, alguns podem dizer que eu sou rígida. E eu diria que sou pouco rígida. Aliás, quem já teve aula comigo, faça o favor de se pronunciar e me defender aqui. Se tem uma característica que não me define como professora é a rigidez. Mas tem uma palavra que alguns podem achar que é sinônimo da primeira, e esta sim, eu uso para me definir: rigor. Eu sou rigorosa, sobretudo eticamente. Ser rigorosa não faz de mim brava, ou séria, ou inflexível. Ser rigorosa eticamente faz apenas com que você possa ter a certeza que, sempre que eu notar que você me pede pesos e medidas variados, eu vou deixar claro que é isso que você está fazendo.

E é esse o meu objetivo com essa carta. Dizer a vocês que enquanto vocês não se reconhecerem na condição de sujeitos barrados, vocês sempre se sentirão injustiçados com as condições que a vida assume não apenas na universidade, mas do lado de fora dessa bolha que a gente erra ao construir para vocês. Isso que eu estou fazendo, ao contrário do que vocês podem alegar lançando mão dos conceitos que vocês aprendem em sala de aula, não é naturalizar o sofrimento: ele existe. Assim como existem as condições que os produzem. No entanto, esse sofrimento deve ser dito em primeira pessoa. E não projetada à terceira pessoa que está passando pelo corredor para buscar um dos seus instrumentos de trabalho. 

As condições que produzem esse sofrimento, parte delas, também as sofremos nós. Estamos submetidos, mas não como vocês. Porque vocês podem escolher estudar menos ou mais para uma prova, participar ou não de um projeto, fazer ou não um trabalho de conclusão de curso ou uma iniciação científica, faltar a 25% das aulas, dormir durante elas ou usar o computador para fazer qualquer coisa que não seja aproveitar aquele espaço de formação pago com dinheiro público. Isso significa que o mínimo de controle e comprometimento exigido através de trabalhos, provas, relatórios e prazos é a mínima garantia em relação à responsabilidade que nossa profissão exige quando formamos profissionais que deverão saber como acolher o sofrimento psíquico do outro sem vitimizá-lo. 

O fato de eu admitir que a vida ser feita de escolhas e renúncias não significa naturalizar a opressão do cotidiano e ignorá-la, como fazem os que não avaliam ou que não registram frequência assumindo que vocês são responsáveis pela formação de vocês. Não. Eu também sou responsável. E eu assumi essa responsabilidade imbuída de um desejo em relação a ela que quem já teve aula comigo reconhece em cada aula que eu dou. E que quem faz parte da minha vida não consegue deixar de notar sempre que eu falo sobre vocês e sobre as coisas que a gente discute em sala de aula. Eu sou tão professora, gente...Tão professora que me sinto tentada a responder uma frase em um cartaz que vocês escreveram. Tão professora que estou aqui pegando vocês pela mão e dizendo: vocês erraram. Erraram quanto à forma e quanto ao método.  

Por isso finalizo essa carta dizendo: cresçam. E crescer significa entender que a frustração que a gente sente quando não consegue realizar o esperado não pode nunca ser dirigida ao outro. porque a frustração é resultado direto de uma condição da qual o outro não pode livrar vocês. Essa condição é a condição de castrados. Mas é claro, desde que estejamos sendo éticos em relação ao nosso desejo de nos tornarmos profissionais. E desejo, bonitos e bonitas, sempre vai custar os olhos da cara.

Com carinho sincero (já que de mim vocês nunca devem esperar menos do que sinceridade),

Angela

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

2016, me ajuda a te ajudar.

Eu resumiria 2016 com um grande suspiro. Aquele que a gente tem que tirar lá do diafragma para ver se experimenta algum alívio àquele aperto no peito. Angústia é outro nome que esse aperto tem. O meu diafragma fez hora extra esse ano.

Eu resumiria 2016 como o ano do textão. É preciso de muito simbólico para dar conta de destituição imaginária que a gente viveu em um ano em que descobrimos a facilidade com que as  nossas instituições podem ser destruídas. Não existe nada que garanta o estado das coisas, isso pode ser muito bom para alguns assuntos. E muito ruim para outros, como estamos vivendo e viveremos na pele pelos próximos anos.   

Eu resumiria 2016 como o ano das oposições marcadas com dentes e garras à mostra. Ou você é uma coisa ou outra. Não foi um ano para ponderações, entendidas como sinal de fraqueza, de neutralidade. Esse foi o ano em que assassinamos simbolicamente o outro. É porque quando só cabe um tipo de discurso, os outros silenciam. E se silencia quem enuncia a palavra, mata-se o sujeito. Toda vez que eu calei alguém, permiti que coubesse apenas um posicionamento. Desse jeito, vamos longe...

Eu resumiria 2016 como o ano em que eu aprendi que o real do corpo é uma merda. Que não fumar, não beber, comer direito, fazer exercício físico, levar uma vida equilibrada não te garantem nada. Toda vez que eu ouço a pergunta "como está o seu pai?", eu sei que a resposta é "ele está melhor". Melhor em comparação ao pior em que ele já esteve. Até aqui as emergências do real do corpo tinham sido muito pequenas na minha vida. Esse ano, as senti como um trator que passou por cima da gente e, como nos desenhos animados, ficamos achatados no chão. Ainda estou me recuperando desse achatamento. Posso dizer que continuo andando meio plana por aí e  não fui capaz de sair de mim e dos meus para olhar mais ao redor. O movimento de rotação imperou por aqui. Peço desculpas por isso.

Eu resumiria 2016 como o ano em que o cheiro de fim de ano não veio. É que eu sempre sentia um cheiro diferente e muito gostoso quando chegava essa época do ano. Não sei descrever, não é nada no ambiente. É alguma coisa em mim. Desde que tenho lembrança desse cheiro (acho que eu comecei a percebê-lo quando eu tinha uns 4 anos), essa foi a primeira vez que ele não apareceu. O ano acabou sem aviso, com os dois pés no peito. Deve ser por causa do achatamento que descrevi antes. 

Mas eu pedi para que 2016 me ajudasse a ajudá-lo. E ele fez isso, pelo menos do ponto de vista pessoal (que é o que eu sou capaz de considerar, já que estou em movimento de rotação).

Ele me deu amigos que eu quero sempre comigo; viagens que me abraçaram por dentro; me fez ver que lá em casa as pessoas conseguem se ajudar quando a situação aperta; que eu sou reconhecida no que eu faço. E ele me deu o começo do melhor plano: aquele que vai tornar a distância que eu venho percorrendo em milhas se reduzir a distância de um abraço. E eu sempre lembrarei dele por isso.