Que nem limão

Que nem limão

terça-feira, 17 de junho de 2014

Perdi a mão

Desde criança, quando eu gosto de um filme, eu preciso assistir mais de uma vez. Acho que é um jeito de tentar se apropriar de cada pedacinho (na ilusão de que isso seria possível). É apreender para si as entonações, os olhares, o som da respiração. 

Já faz um bom tempo que Peixe Grande é um dos meus filmes preferidos. Acho que ele é um filme quentinho, como me disse uma querida outro dia. Desses que quando você termina de ver, você se sente abraçado, aconchegado em um sentimento que pode ser traduzido de muitas formas.

Hoje eu o traduzo como a esperança de que as histórias individuais se sobreponham às fatalidades gerais que fazem da nossa vida um espetáculo de tristeza. Acho que eu tenho me tornado uma pessoa mais cética.

Mas por mais cética que hoje eu me perceba, ainda resta alguma coisa que se agarra fortemente na capacidade humana de criar coisas bonitas. Na capacidade humana de metaforizar a vida. Outro dia, eu falava sobre um texto, em que um psicanalista dizia que quando uma música nos afeta, nos toca o coração, não é porque ela oferece uma resposta. Mas porque ela nos revela uma pergunta que a gente não sabia que estava ali.

Nesse dia, eu disse que me sentia assim com muitos filmes. Que ao fim deles, vinha um sentimento que eu não sabia explicar bem. Mas que eu poderia definir, como no filme que eu acabei de citar aqui, como sendo uma "estranha familiaridade".

Enfim, todo esse prólogo (para manter a regra da minha prolixidade) e para contar o seguinte. Toda vez que eu assisto esse filme, vejo coisas novas. Mas tem uma que sempre me grita, me engancha, me pega de jeito. É quando Edward Bloom chega à Espectro. Eu tenho quase certeza que já escrevi sobre isso antes. Mas passei o dia em uma necessidade absurda de escrever e não sabia sobre o quê. Quando desisti e coloquei Peixei Grande pra ver.

Esse é um filme quentinho que fala sobre lugares quentinhos. E sobre a completa inabilidade de alguns de se manter nesses lugares. E isso é o que me afeta. É essa inquietude diante do conforto, diante da paragem. Há um tempo, conversando com uma amiga, eu dizia que a cada vez mais chegava a conclusão que meu principal sintoma é viajar. Que eu viajo, que eu parto, que eu chego, que eu vou embora sem me despedir porque eu não gosto que me vejam chorar.

Queria saber contar histórias bonitas como as do filme. Tenho tido cada vez mais dificuldade em escrever.Acho que perdi a mão. Mas eu adoro histórias. Como eu não sei contar de um jeito bonito, fico aqui, me aquecendo com elas. 

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